Mulheres colorindo a cidade: Entrevista com Ananda Santana
Foto: Instagram @srt.as
Ananda Santana, de 26 anos, é uma artista de rua e ilustradora baiana que atua na cena do Grafitti
em Salvador há mais de 7 anos, nunca escondeu o seu amor pelo universo artístico e pelo poder de
representação que essa cultura proporciona. Nessa entrevista, Ananda comenta um pouco da sua
história, desafios, visões sobre a Cultura Hip-Hop em Salvador e o papel desse movimento artístico
na cidade.
Como começou a sua história no Graffite? Alguém te inspirou e incentivou a seguir esse movimento?
Comecei por volta de 2014, no Ensino Médio. Tinha uma colega que já fazia e me incentivou nisso, por
sempre gostar muito de desenhar e gostar muito de rua, de entender como as coisas funcionam, foi um
caminho que se mostrou viável para estar na rua e estar desenhando ao mesmo tempo. A partir disso,
houve um curso de feminismo e Grafitti organizado pela Rede Mumbi (Mulheres Militantes do Bairro à
Internet) que tinha como professoras duas grafiteiras de Salvador: Chermie e Mônica.
Esse curso era muito mais teórico e foi importante para conhecer outras meninas na mesma condição
que a minha, de querer pintar mas não poder estar nas ruas com tanta facilidade. Foi muito
importante para que a gente conseguisse se unir e se conhecer. Fizemos o curso e ,logo depois,
formamos uma Crew, que nada mais é do que uma reunião ou uma família, digamos, de pessoas que saem
para pintar juntas.
Ela se chamava “Donas do Rolê” e eram cerca de 7 a 8 mulheres aqui da cidade e demos uma movimentada
na cena do grafitti soteropolitano que antes era majoritariamente masculina.
Como surgiu o Dois Detalhes e qual é a melhor parte desse projeto pra você?
O Dois Detalhes surgiu junto ao meu relacionamento com Ramses, que é meu companheiro de vida e de arte. Foi nesse período de começar a pintar que comecei a me relacionar com ele. Ele já pintava mas ainda não ocupava as ruas. Então por sempre pintarmos juntos e por termos trabalhos muito detalhados e com muitas flores, muitas cores, coisa que eu também gosto, nos reunimos e decidimos trabalhar juntos, como se fosse a nossa própria crew também. A partir disso saímos pintando, fazendo nossos trabalhos de design autorais, fazendo ilustrações e etc. O nosso maior feito enquanto Dois Detalhes até hoje foi a participação no Projeto Mural, onde fizemos a lateral de um prédio de 28x7,5m.
Acompanhando com atenção o seu trabalho, dá para notar a presença de muita cor e de figuras negras femininas. Para você, qual a importância dessa representação e o que busca despertar no público?
Essa questão de buscar a identidade com o trabalho, é algo praticamente exigido no Grafitti. Eu
sempre gostei, sempre me vi e acho importante cada vez mais que mulheres, meninas e senhoras se
vejam nos muros. Eu confesso que no início era algo mais por identificação mesmo, por me ver
enquanto uma mulher negra e querer representar isso nos muros. Mas, hoje eu já tenho uma consciência
um pouco maior de entender o quanto isso é importante e o quão motivador é para mim e para quem vê o
trabalho. Eu gosto de trazer muitas cores, muita vida, trazer um pouco da cultura, das essências, do
contato com a natureza através desses rostos, e eu não tenho uma personagem fixa como muitos
grafiteiros e grafiteiras tem, eu gosto de me inspirar em mulheres próximas.
Vejo como um ato político também, talvez antes de nós (Dois Detalhes) já houvesse vários
grafiteiros pintando rostos de mulheres negras, até porque vivemos numa cidade majoritariamente
negra. Mas eu busco sempre trazer o meu olhar e o meu traço em cada rosto, e, além disso, ser mulher
pintando também é um ato mais político ainda.
Durante toda a sua trajetória, tem algum momento que você considera o mais marcante? Aquele que vai ficar para sempre marcado na memória
Durante todo esse processo, para mim, o momento que mais marcou até hoje foi poder ter conhecido
Angola através do Grafitti. Talvez se não fosse o Grafitti eu não teria a oportunidade de voltar a
um local tão ancestral pra gente, tão parecido com Salvador, tão vivo, tão inspirador. Bebemos muito
dessa fonte para ser o que somos hoje então para mim, então, é o momento mais marcante da minha
história com Grafitti.
A viagem foi em 2018 e lá conhecemos várias partes do país e fizemos duas pinturas, uma na capital e
a outra na Serra da Leba, que foi o lugar destinado para que a gente fosse pintar.
Ao longo de toda sua carreira artística, qual o seu trabalho preferido e por quê?
Eu tenho alguns trabalhos preferidos, esse da Serra da Leba para mim é o que eu mais gosto por seu
significado, por ser onde é, por ter o processo de imersão nos lugares onde a gente passou, de
observar e a partir disso representar o que foi observado no painel. Eu representei duas mulheres,
uma senhora e uma menina, como se fosse um encontro da ancestralidade com o novo.
Depois, o que eu fiz no Projeto Mural enquanto Dois Detalhes por seu desafio, por altura, por
temática, por vibração… uma das metas enquanto grafiteira era pintar a empena de um prédio e eu
consegui, então foi um dos melhores presentes com Grafitti.
Eu sempre me perguntei como os artistas faziam para pintar artes muito grandes e, principalmente, altas. Qual foi o seu trabalho mais desafiador?
Meu trabalho mais desafiador volto a dizer que foi o do Mural, por questão de altura e por reaprender a desenhar, porque eu digo que no Grafitti você reaprende a desenhar, é muito confortável estar no papel onde você tem domínio total da superfície, mas em uma parede várias coisas podem acontecer. A parede que pintamos era muito alta, então foi necessário fazer um teste com o instrumento que utilizamos para subir nela, que foi o balancinho. Então eu e o Tiago (Ramses) tivemos que fazer o manuseio dele e como diz o nome, balançava bastante. Foi bem na fase da pandemia que tinha toque de recolher, então a gente tinha que correr para pintar para às 18h sair de lá do comércio e ir para casa. Foram oito dias porque estávamos juntos pintando o tempo todo, a gente subia o mais cedo possível e só saia às 18h… Foi muito desgastante mas muito realizador e compensador.
O tema central desse projeto é a criminalização dos elementos da cultura Hip-Hop enquanto movimento periférico e queria saber se você já sentiu na pele as consequências disso? Para você, de onde parte essa visão negativa?
Da minha visão, eu percebo que é uma cultura feita na periferia para ocupar locais onde o poder público muitas vezes não vai e não quer ir, não olha pra essas pessoas. A gente tem um papel, além de artístico, social onde muitas crianças que não têm acesso a um museu podem ter acesso ao Grafitti, elas podem ter contato com o que está sendo feito ali. Então isso é muito poderoso. A gente tem toda essa motivação social de educação e de salvar vidas através do Hip-Hop, então a criminalização vem muito de um lugar de não conhecimento de quem está por fora, por achar que por estar ali na periferia é algo ilegal, muito pelo contrário, é algo motivador, eu costumo dizer que o Grafitti é transformador, ele traz mensagem e é necessário que você estude para poder fazer. O poder do Hip-Hop é muito grande e eu vejo que muito dessa visão negativa vem do não conhecimento e de fechar os olhos para isso, porque a gente vê também que o Hip-Hop dá acessos muitas vezes ao que a alta sociedade quer que não tenhamos acesso.
Por mais que a cena do Graffiti venha se desconstruindo a cada dia mais, é possível notar que ainda falta um caminho a ser percorrido, quais os maiores desafios que já sentiu enquanto mulher dentro desse movimento?
Os maiores desafios que encontrei e encontro enquanto mulher envolvem o preconceito ainda sofrido
por
estar nas ruas, questões de assédio e machismo mesmo, por ser uma área que ainda é muito masculina,
a sociedade está buscando se educar para entender a nossa presença nas ruas e por isso é tão
importante que estejamos ocupando esses espaços.
Sofri algumas vezes questões de machismo mesmo, piadinhas, desmerecimento do meu trabalho, não
conseguir realizar alguns trabalhos por ser mulher, do contratante não acreditar no meu potencial
enquanto mulher. Então é um processo de muita luta e busca mesmo, não podemos parar, parando você é
rapidamente esquecida, mas ninguém busca ver o que a levou a sair ou diminuir o ritmo nas ruas. Para
as mulheres as demandas são muito maiores e vão além das ruas!
Na sua visão, qual o principal papel desse movimento artístico na cultura da nossa cidade?
O principal papel do Graffiti na minha visão, é de transformar a cidade, informar, é um mecanismo de cultura e arte que abre inúmeras possibilidades para o artista, como conhecer vários lugares que muitas vezes só o Graffiti leva, o poder de encantar uma criança e mostrar que a arte é possível. Vejo o Graffiti como uma parte muito importante para a nossa cidade, falando de turismo mesmo, precisamos olhar com mais calma para os muros, com mais atenção, os muros falam, são e fazem história, basta ter um olhar mais sensível para perceber quão poderoso é o Graffiti!